Mudança de paradigma para o manejo de matrizes, em que a fêmea moderna
No Painel Matrizes do SINSUI-MINITUBE, David Rosero e Anderson Queiróz mostraram que a próxima fronteira do desempenho reprodutivo passa pela leitura individual da fêmea, pela alimentação no momento certo e por sistemas de gestação coletiva que transformem bem-estar em produtividade.

suínoBrasil | SINSUI 2026
Mudança de paradigma para o manejo de matrizes, em que a fêmea moderna
A suinocultura registrou avanços significativos em produtividade, prolificidade e eficiência, mas uma parte importante do próximo salto de desempenho das reprodutoras pode estar menos em buscar mais potencial biológico e mais em parar de desperdiçar o potencial que já existe dentro das granjas.

Ao reunir as palestras de David Rosero, PhD, da Iowa State University, e Anderson A. de Queiróz, da Atualtech, o painel colocou em discussão uma mudança de paradigma para o manejo de matrizes, em que a fêmea moderna não pode mais ser conduzida apenas por programas médios, dietas únicas, decisões tardias ou adequações estruturais tratadas como simples cumprimento de exigência. O desempenho reprodutivo passa, cada vez mais, pela capacidade de enxergar diferenças individuais, antecipar falhas, ajustar alimentação, reduzir estresse, organizar o ambiente coletivo e transformar dados em decisão prática.
A dimensão econômica dessa discussão apareceu de forma direta na apresentação de Anderson Queiróz. Segundo simulação apresentada pelo palestrante, 1 ponto percentual de taxa de parto no rebanho brasileiro representaria cerca de 60.234 partos por ano e aproximadamente 790 mil leitões desmamados. Em outra projeção mostrada no painel, a evolução de 87,7% para 90% de taxa de parto foi associada a 1,8 milhão de leitões, volume equivalente à produção de 60 mil matrizes com 30 desmamados por fêmea ao ano.
O dado chama atenção porque reposiciona a discussão. Em um setor que olha com frequência para nascidos totais, desmamados por fêmea ao ano e ganhos genéticos, a taxa de parto aparece como uma oportunidade menos ruidosa, mas de grande impacto.
Na leitura apresentada por Queiróz, dados do Ranking Agriness indicaram evolução expressiva em nascidos totais e DFA entre 2016 e 2025, enquanto a taxa de parto avançou em ritmo mais discreto. Para o palestrante, essa diferença ajuda a mostrar que parte da produtividade pode estar sendo perdida em pontos aparentemente operacionais, como formação de grupos, sistema de alimentação, qualidade de piso, área de recuperação, monitoramento da fêmea vazia, equipe treinada e desenho do alojamento coletivo.
A palestra de David Rosero trouxe o outro lado dessa mesma equação. Ao tratar de estratégias inteligentes de alimentação para matrizes, o pesquisador defendeu que alto rendimento não depende apenas de formular uma boa dieta, mas de entregar a dieta certa, na quantidade certa, no momento certo e para a fêmea certa.
A mensagem central foi que não existe uma matriz média capaz de representar, com eficiência, a variabilidade real de peso, condição corporal, consumo, fase produtiva, comportamento, exigência nutricional e risco de falha dentro de um plantel.
Essa ideia é especialmente relevante porque desafia programas estáticos de alimentação. Na prática, matrizes de diferentes ordens de parto , pesos, reservas corporais e momentos do ciclo produtivo podem responder de maneira muito distinta ao mesmo manejo.
Quando a granja trabalha apenas pela média, parte das fêmeas pode receber mais do que precisa, enquanto outra parte pode chegar a fases críticas com deficiência, perda de condição ou maior risco de falha produtiva. Para Rosero, tecnologias como câmeras, sensores, cochos eletrônicos, monitoramento de consumo e análise de dados podem ajudar a transformar essa variabilidade em decisões mais precisas.
O pesquisador apresentou aplicações práticas em diferentes fases da fêmea, desde a seleção e o manejo de fêmeas de reposição até gestação, periparto e lactação. Entre os exemplos discutidos estiveram o uso de inteligência artificial para estimar peso corporal, ferramentas para avaliar estrutura e probabilidade de permanência no plantel, estratégias com fibra dietética na gestação, frequência alimentar no período próximo ao parto e monitoramento do consumo de lactantes como sinal precoce de falhas.
A tecnologia, nesse contexto, não foi apresentada como automação pela automação, mas como ferramenta para antecipar problemas que a granja, muitas vezes, só percebe quando a perda já apareceu no indicador final. Um dos pontos de maior valor técnico foi a conexão entre nutrição, comportamento e longevidade.
Rosero abordou desafios observados em granjas comerciais, como mortalidade de fêmeas, descarte precoce, problemas locomotores, condição corporal inadequada, prolapsos e falhas no periparto. Em dados de necropsias apresentados na palestra, transtornos gástricos ou úlceras e leitões retidos apareceram entre achados relevantes em mortes repentinas.
Embora os dados tenham origem em estudos e bases específicas, principalmente norte-americanas, a mensagem técnica tem aplicação mais ampla, ou seja, a matriz dá sinais antes de falhar, e o manejo precisa ser capaz de captá-los mais cedo.
A apresentação de Anderson Queiróz complementou essa leitura ao trazer a discussão para o manejo reprodutivo na gestação e para os sistemas de alojamento coletivo. O palestrante sustentou que bem-estar e produtividade não devem ser tratados como objetivos opostos, mas alertou que a simples migração do sistema individual para o coletivo não garante, por si só, melhora nas condições de bem-estar nem no desempenho das matrizes.
Esse alerta é particularmente importante porque evita uma leitura simplista do tema. O alojamento coletivo pode ser uma ferramenta importante dentro de sistemas modernos, mas apenas quando estrutura, projeto, equipe, sistema de alimentação e manejo funcionam de forma integrada.
Quando há falhas de dimensionamento, piso inadequado, disputa por alimento, grupos mal formados, ausência de área de recuperação, treinamento insuficiente ou uso inadequado da tecnologia, o sistema pode intensificar brigas, lesões, estresse, descarte precoce e perdas reprodutivas.
Queiróz comparou diferentes modelos de alimentação em alojamento coletivo, como mini box, estações de livre acesso e estações eletrônicas. A análise não apontou um sistema universalmente melhor, mas mostrou vantagens e limitações de cada alternativa. Entre os pontos destacados estiveram proteção durante o consumo, possibilidade de alimentação individualizada, histórico de consumo, simultaneidade no acesso ao alimento, risco de fila, necessidade de treinamento das fêmeas, investimento em tecnologia, manutenção, pós-venda e adequação à realidade da granja.
A área de recuperação também ganhou peso na discussão. Segundo o palestrante, mesmo em boas condições de manejo, espera-se que uma parcela das gestantes precise ser removida para recuperação. Nos dados apresentados, valores muito baixos podem indicar que a granja não está identificando corretamente fêmeas de risco, enquanto valores muito altos podem sinalizar problemas no sistema. A recomendação discutida no painel foi considerar vagas adicionais estratégicas para recuperação, reforçando que o cuidado com essas fêmeas não é detalhe, mas parte do desempenho reprodutivo.
O ponto comum entre as duas palestras foi mostrar que o indicador final raramente nasce no fim do processo. A taxa de parto, a mortalidade, o descarte, o número de leitões desmamados, a duração do parto, a condição corporal e a permanência da matriz no plantel são resultado de decisões acumuladas muito antes de aparecerem no relatório.
Na apresentação de Rosero, esse raciocínio apareceu na defesa da alimentação dinâmica e do acompanhamento individual da fêmea. O consumo de alimento na lactação, por exemplo, foi tratado como possível sinal precoce de falhas.
No periparto, o acesso ao alimento antes do parto e a frequência de fornecimento foram associados a diferenças em duração do parto, assistência necessária, mortalidade e leitões atrasados em estudos apresentados pelo pesquisador. Na gestação, a fibra foi discutida não apenas como componente nutricional, mas também como elemento ligado a comportamento, saciedade, agressividade e bem-estar em sistemas coletivos.
Na apresentação de Queiróz, a mesma lógica apareceu pelo lado econômico e operacional. O especialista enfatizou o custo acumulado de uma fêmea vazia em diferentes fases, considerando ração e sêmen.
Aos 35 dias, segundo os valores apresentados com base em banco de dados da Atualtech, essa fêmea já havia acumulado custo relevante antes mesmo de a perda se expressar plenamente no sistema. Aos 110 dias, o custo acumulado mostrado no painel chegava a R$ 569,30, ou seja, uma falha reprodutiva não é apenas um evento biológico, mas uma perda de alimento, sêmen, espaço, tempo, mão de obra e oportunidade produtiva.
Esse raciocínio ajuda a explicar por que a produtividade das matrizes não pode ser discutida apenas como busca por mais desempenho no limite. Em muitos casos, o ganho pode vir de reduzir falhas que já estão sendo produzidas pelo próprio sistema, como fêmeas mal agrupadas, dietas pouco ajustadas à fase, consumo não monitorado, gestantes sem recuperação adequada, sinais físicos ignorados, tecnologia sem plano de ação e equipes que não foram incorporadas à mudança operacional.
O Painel Matrizes também mostrou que tecnologia e bem-estar não podem ser tratados como temas separados. Sensores, câmeras e sistemas automatizados têm valor quando ajudam a tomar decisões melhores sobre fêmeas reais, em tempo real.
Da mesma forma, bem-estar deixa de ser apenas uma resposta a demandas externas quando se traduz em menor estresse, menor disputa, melhor condição corporal, menor descarte, melhor taxa de parto e maior permanência produtiva da matriz no plantel.
Para Rosero, a nutrição de precisão vai além da formulação. Ela exige dados, leitura dos sinais da fêmea e capacidade de ajustar o manejo ao que está acontecendo dentro da granja.
Para Queiróz, o alojamento coletivo também não pode ser reduzido à troca de estrutura. Ele depende de cultura operacional, treinamento, manutenção, leitura de comportamento, área de recuperação, projeto correto e disciplina na execução.
Essa convergência talvez seja a contribuição mais importante do painel. A matriz moderna reúne maior potencial produtivo, maior exigência nutricional, maior sensibilidade a falhas de manejo e maior necessidade de acompanhamento individual.
Tratar essa fêmea pela média pode parecer operacionalmente simples, mas se torna cada vez mais caro quando a granja busca alta performance. Ao final, o painel deixou uma provocação técnica para produtores, veterinários, nutricionistas e gestores: quantos leitões, partos e dias produtivos ainda estão sendo perdidos porque a granja mede tarde demais, agrupa mal, alimenta de forma padronizada, subestima a recuperação ou usa tecnologia sem transformar informação em decisão?
Se 1 ponto de taxa de parto pode representar cerca de 790 mil leitões desmamados no cenário apresentado por Anderson Queiróz, a pergunta que fica não é apenas como produzir mais. É onde o sistema já está deixando de capturar desempenho. E a resposta, à luz das duas palestras, pode estar justamente no manejo que ainda trata matrizes diferentes como se fossem iguais.
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