A fibra insolúvel na dieta da fêmea suína gestante como estratégia para mitigação da fome e garantia do desempenho – PARTE I
A fibra insolúvel na dieta da fêmea suína gestante como estratégia para mitigação da fome e garantia do desempenho – PARTE I Os avanços no melhoramento genético, nutrição, ambiência e sanidade proporcionaram uma melhoria na produtividade das matrizes suínas no decorrer dos anos, tornando as fêmeas cada vez mais prolíferas. O aumento no número de […]

A fibra insolúvel na dieta da fêmea suína gestante como estratégia para mitigação da fome e garantia do desempenho – PARTE I
Os avanços no melhoramento genético, nutrição, ambiência e sanidade proporcionaram uma melhoria na produtividade das matrizes suínas no decorrer dos anos, tornando as fêmeas cada vez mais prolíferas.
O aumento no número de leitões nascidos por parto tem gerado consequências para as fêmeas suínas, como:
A ocorrência de partos cada vez mais longos implica em maiores desafios na sobrevivência e vitalidade dos leitões ao nascer, estando associado a um consequente aumento do número de natimortos (pré ou intraparto). Além disso, há um risco para a saúde reprodutiva das fêmeas para os próximos ciclos associados a ocorrência de partos longos, uma vez que o ambiente uterino fica exposto à contaminação por mais tempo (BORTOLOZZO et al., 2023).

A inclusão de fibra insolúvel pode transformar a saúde intestinal e reprodutiva das matrizes suínas.
O aumento do fornecimento de energia na ração é uma estratégia nutricional comumente observada ao final da gestação, visando fornecer energia suficiente para o desenvolvimento fetal e garantindo acúmulo de reservas corporais da fêmea para o período de lactação.
Contudo, esse modelo de dieta geralmente está associado a uma menor concentração de fibra dietética (OLIVIERO et al., 2009). Nesse sentido, estudos já demonstraram que uma diminuição no teor de fibra na alimentação de fêmeas suínas gestantes tem efeitos negativos sobre o comportamento, a motilidade intestinal e o desempenho dos leitões.
A constipação ou presença de excesso de material fecal no cólon pode resultar na oclusão parcial do canal de parto, podendo gerar quadros de distocia e, por consequência, aumento na duração do parto.
Além disso, outro aspecto importante relacionado aos programas nutricionais adotados para fêmeas suínas gestantes é que mesmo atendendo as exigências energéticas, ao longo da gestação o volume de ração fornecido é baixo quando comparado ao potencial de consumo voluntário que das fêmeas (D’EATH et al., 2009).
Essa é uma prática que expõe os animais ao risco de entrarem, recorrentemente, em um estado de fome ao longo de todo período de gestação, uma vez que no Brasil essas dietas são concentradas e formuladas a base de cereais e grãos com baixo teor de fibra (D’EATH et al., 2009).
Na União Europeia, a fome crônica de fêmeas gestantes é um assunto discutido como uma questão central de bem-estar animal, sendo que o fornecimento de alimentos ricos em fibra com objetivo de aumentar a saciedade deve ser realizado pelos suinocultores (JENSEN et al., 2015).
As fibras dietéticas são carboidratos que englobam compostos como:
Os suínos não apresentam enzimas endógenas para digerir esses compostos. Devido à extensa quantidade de características que as fibras podem ter, as mesmas podem ser classificadas de acordo com a origem, composição química e propriedades físico-químicas, além de subcategorizações adicionais baseadas no grau de polimerização (LA TORRE et al., 2021).
Dentre seus efeitos no metabolismo, a fibra alimentar pode regular o apetite, melhorar as respostas glicêmicas e lipídicas, regular o colesterol plasmático limitando a absorção de sais biliares, melhorar a função digestiva e regular a digestão e absorção de nutrientes (HAN et al., 2023).
Apesar dos benefícios da inclusão de fibras na dieta serem amplamente conhecidos, a escolha da fonte de fibra é essencial para o sucesso da sua utilização, pois certos alimentos fibrosos podem ser mais suscetíveis ao desenvolvimento de micotoxinas do que outros. As micotoxinas são metabólitos secundários tóxicos produzidos por vários fungos, como Aspergillus, Penicillium e Fusarium, que podem contaminar alimentos e rações em todas as fases da cadeia produtiva (PIERRON et al., 2016). Os suínos são animais sensíveis às micotoxinas, e principalmente durante a fase reprodutiva, os efeitos prejudiciais à saúde são exacerbados.
Nesse contexto fontes de fibras solúveis, por se tratar de fontes tradicionalmente oriundas de cereais de inverno no Brasil, apresentam um maior risco de contaminação do que as fontes insolúveis.
Assim, a inclusão de fontes de fibra insolúvel torna-se uma ferramenta nutricional importante para melhorar o estado de saciedade, diminuir a ocorrência de constipação e o melhorar a cinética de parto, devido a suas características físico-químicas e baixo risco de contaminação.
A fibra insolúvel e seus efeitos na saciação, na saciedade e no comportamento em fêmeas suínas gestantes
Para compreender como a fibra insolúvel pode mitigar a fome da fêmea suína gestante é necessário a diferenciação de dois termos: a saciação e a saciedade.
O primeiro (saciação) consiste no processo que leva à interrupção da alimentação, que pode ser acompanhado por uma sensação de satisfação, ou seja, reconhecimento do processo de alimentação, sensação a curto prazo.
O segundo (saciedade), é a sensação de que persiste após a ingestão de alimento, suprimindo a ingestão adicional de energia até que a fome retorne, ou seja, a sensação prolongada de satisfação (D’EATH et al., 2018).
Esse processo (Figura 1) pode ser dividido em diferentes estágios (sensorial, cognitivo, pós-ingestivo e pós-absortivo) que são influenciados diretamente pela quantidade, composição e características do alimento a ser ingerido (BENELAM, 2009).

Assim como nos humanos, o primeiro estágio é sensorial. A ingestão de alimento pelos animais é influenciada pela textura, sabor, cheiro e outros aspectos dos alimentos. Na sequência, após a ingestão, quando o alimento chega ao estômago, inicia-se a fase pós-ingestiva.
Com a distensão do estômago o organismo, que possui uma complexa rede de comunicação e reconhecimento da alimentação, envia sinais ao cérebro, iniciando o processo de saciação. O processo de digestão então é iniciado e continua quando o bolo alimentar chega ao intestino. Nesse momento os hormônios que promovem a saciação e a saciedade são liberados do intestino.
Na fase pós-absortiva, os nutrientes e o status do processo de digestão são detectados por receptores em vários locais do corpo, incluindo o cérebro, fornecendo informações sobre o estado nutricional do animal, caracterizando o estado de saciedade (BENELAM, 2009).
De maneira geral, assumimos na nutrição que os animais se alimentam para atingir um objetivo nutricional de sobrevivência e desenvolvimento.
Desse modo, sentir fome tem um valor adaptativo importante, entretanto, a motivação alimentar do animal, irá variar de acordo com os fatores internos inerentes ao próprio animal, como o seu estado nutricional e com fatores externos, como padrão de alimentação, disponibilidade e características do alimento.
Quando essa motivação alimentar é exacerbada ou frustrada o animal pode redirecionar essa motivação e desenvolver comportamentos anormais, como por exemplo, brigas e estereotipias. (D’EATH et al., 2018).
Esse cenário pode ser observado em granjas de produção intensiva de suínos por todo o mundo, e a inclusão de fibra nas dietas durante a gestação é capaz de aumentar a saciedade pós-prandial como consequência do atraso no esvaziamento gástrico, enchimento intestinal, e influência nos metabólitos e hormônios plasmáticos (JENSEN et al., 2015; HUANG et al., 2020).
Sob o comportamento alimentar especificamente, a inclusão da fibra pode aumentar o tempo necessário para alimentação, mesmo com uma ingestão de nutrientes e energia semelhante a dietas mais concentradas.
Caro leitor, na segunda parte deste artigo vamos aprofundar um tema essencial: “Constipação: impactos na fêmea gestante e desempenho dos leitões”. Você verá como esse problema pode afetar a saúde das matrizes e comprometer o desenvolvimento dos leitões, além de estratégias para prevenção e manejo eficiente.
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