Em entrevista exclusiva no estúdio da agriNews Brasil durante o SIAVS 2026, José Antonio Ribas Jr., diretor de Agro da Seara Alimentos, e Fábio Stumpf, VP de Agropecuária e Qualidade Regulatória da MBRF, discutiram barreiras comerciais, previsibilidade, uso de antimicrobianos e a necessidade de uma comunicação mais estratégica para o setor.

O estúdio da agriNews Brasil no SIAVS 2026 recebeu dois executivos de peso da proteína animal brasileira para uma conversa sobre os desafios e instabilidades que ultrapassam as porteiras das granjas e chegam às decisões de mercado, políticas públicas e comunicação. José Antonio Ribas Jr., diretor de Agro da Seara Alimentos, e Fábio Stumpf, VP de Agropecuária e Qualidade Regulatória da MBRF, compartilharam suas avaliações sobre o atual cenário da produção de proteínas e os caminhos que o setor precisa construir para manter competitividade.
A entrevista expôs uma contradição importante: ao mesmo tempo em que o Brasil demonstra capacidade de adaptação diante de crises, guerras e mudanças de mercado, o ambiente de negócios se torna cada vez mais difícil de prever.
Um setor forte em um mundo mais difícil de prever
Na avaliação dos executivos, o SIAVS ganhou dimensão e passou a refletir a relevância internacional da cadeia brasileira de proteínas. A presença de produtores, agroindústrias, fornecedores e visitantes estrangeiros reforça a posição do país como grande exportador e amplia a oportunidade de mostrar ao mundo a capacidade produtiva brasileira.
Mas, fora dos pavilhões, o ambiente comercial tornou-se mais complexo. Barreiras internacionais, conflitos geopolíticos e mudanças nas relações entre países dificultam planejamentos de longo prazo. Para Ribas, a indústria precisa concentrar esforços naquilo que efetivamente pode controlar.
“Eu não tenho controle sobre o que a Europa vai decidir, mas eu tenho que fazer bem feito o meu tema de casa. Eu não tenho controle sobre o que o chinês vai decidir, mas eu tenho que fazer bem o meu tema de casa”, afirmou.
Na prática, isso significa investir em biosseguridade, sanidade, competitividade e qualidade para chegar aos mercados internacionais com condições de negociar, mesmo diante de um cenário mais volátil.
Apesar das incertezas, Fábio Stumpf destacou uma característica que considera estratégica para o Brasil: a velocidade de adaptação da cadeia. Segundo ele, diante de eventos como conflitos internacionais e interrupções logísticas, o setor brasileiro demonstrou capacidade de reorganizar rotas, encontrar alternativas e manter o fluxo das exportações. Essa capacidade de resposta seria, na visão do executivo, um diferencial em relação a outros mercados.
O problema é que resiliência não elimina a necessidade de previsibilidade. Produzir frango e suínos envolve ciclos longos e investimentos que precisam ser planejados muito além de um calendário político. A dificuldade, portanto, está em conciliar flexibilidade para reagir às mudanças e segurança suficiente para investir.
Outro tema central da conversa foi a retirada dos antimicrobianos como promotores de desempenho. Os executivos avaliam que a cadeia brasileira já possui conhecimento técnico e alternativas para produzir sem esse modelo de utilização, além de experiência com uso racional de medicamentos quando necessário. O desafio, segundo eles, está em estabelecer regras claras e equilibradas para que produtores e empresas saibam exatamente quais exigências deverão cumprir.
Fábio resumiu a avaliação de que a etapa tecnológica já foi superada e que a maior oportunidade está em comunicar melhor esse conhecimento.
“Eu acho que essa é uma etapa vencida. A gente sabe produzir, sabe como produzir e a gente consegue entregar o que o cliente deseja ou conforme ele tem a especificação”, destacou.
Esse foi um dos pontos mais contundentes da entrevista. Para os executivos, a cadeia de proteína animal ainda se comunica de maneira predominantemente reativa: espera que determinado assunto se transforme em crise para então explicar sua posição.
Fábio defendeu uma comunicação mais antecipada, capaz de apresentar as práticas, os avanços e as histórias do setor antes que terceiros definam a narrativa. Ribas acrescentou que essa comunicação precisa vir acompanhada de maior convergência entre as entidades representativas.
A ideia é sair da lógica de agir somente em momentos de pressão e construir uma agenda permanente de comunicação e defesa dos interesses da cadeia.
“A gente precisa, e aí eu tô falando nós como empresas aqui junto com as empresas de comunicação, contar cada vez mais as histórias de forma mais proativa e não esperar que as coisas aconteçam”, afirmou Stumpf.
Para Ribas, a dificuldade não está apenas em comunicar melhor o que o setor faz, mas também em definir conjuntamente quais são as prioridades que precisam ser defendidas perante o poder público.
Na avaliação dos executivos, questões estruturais brasileiras continuam pressionando a competitividade como, logística, crédito, tributação, custos trabalhistas e acesso à tecnologia aparecem como entraves para novos investimentos e para a modernização da cadeia.
Mesmo assim, a percepção final foi de confiança na capacidade do setor. A proteína animal continuará ocupando espaço relevante na alimentação mundial, enquanto o Brasil reúne produção, tecnologia e experiência para ampliar sua participação.
O recado deixado no estúdio da agriNews Brasil foi, portanto, menos sobre esperar um cenário mais estável e mais sobre preparar a cadeia para navegar em um cenário que provavelmente continuará instável.
Além dos debates estratégicos, os executivos destacaram a importância de levar produtores ao evento para que possam visualizar de perto o tamanho da cadeia, conhecer novas tecnologias e ampliar sua visão sobre o próprio negócio. Essa aproximação, segundo eles, ajuda a conectar inovação, conhecimento e produção e pode contribuir para que uma nova geração continue enxergando oportunidades no agro.
No fim, a força do setor aparece justamente nessa combinação, capacidade de adaptação, conhecimento técnico e disposição para continuar investindo, mesmo quando o cenário externo impõe novas dificuldades.
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