13 ago 2026

O Brasil sabe produzir proteína, mas até onde pode planejar em um mercado cada vez mais instável?

 Em entrevista exclusiva no estúdio da agriNews Brasil durante o SIAVS 2026, José Antonio Ribas Jr., diretor de Agro da Seara Alimentos, e Fábio Stumpf, VP de Agropecuária e Qualidade Regulatória da MBRF, discutiram barreiras comerciais, previsibilidade, uso de antimicrobianos e a necessidade de uma comunicação mais estratégica para o setor.

O Brasil sabe produzir proteína, mas até onde pode planejar em um mercado cada vez mais instável?

O estúdio da agriNews Brasil no SIAVS 2026 recebeu dois executivos de peso da proteína animal brasileira para uma conversa sobre os desafios e instabilidades que ultrapassam as porteiras das granjas e chegam às decisões de mercado, políticas públicas e comunicação. José Antonio Ribas Jr., diretor de Agro da Seara Alimentos, e Fábio Stumpf, VP de Agropecuária e Qualidade Regulatória da MBRF, compartilharam suas avaliações sobre o atual cenário da produção de proteínas e os caminhos que o setor precisa construir para manter competitividade.

A entrevista expôs uma contradição importante: ao mesmo tempo em que o Brasil demonstra capacidade de adaptação diante de crises, guerras e mudanças de mercado, o ambiente de negócios se torna cada vez mais difícil de prever.

Um setor forte em um mundo mais difícil de prever

Na avaliação dos executivos, o SIAVS ganhou dimensão e passou a refletir a relevância internacional da cadeia brasileira de proteínas. A presença de produtores, agroindústrias, fornecedores e visitantes estrangeiros reforça a posição do país como grande exportador e amplia a oportunidade de mostrar ao mundo a capacidade produtiva brasileira.

Mas, fora dos pavilhões, o ambiente comercial tornou-se mais complexo. Barreiras internacionais, conflitos geopolíticos e mudanças nas relações entre países dificultam planejamentos de longo prazo. Para Ribas, a indústria precisa concentrar esforços naquilo que efetivamente pode controlar.

“Eu não tenho controle sobre o que a Europa vai decidir, mas eu tenho que fazer bem feito o meu tema de casa. Eu não tenho controle sobre o que o chinês vai decidir, mas eu tenho que fazer bem o meu tema de casa”, afirmou.

Na prática, isso significa investir em biosseguridade, sanidade, competitividade e qualidade para chegar aos mercados internacionais com condições de negociar, mesmo diante de um cenário mais volátil.

Resiliência brasileira virou vantagem competitiva

Apesar das incertezas, Fábio Stumpf destacou uma característica que considera estratégica para o Brasil: a velocidade de adaptação da cadeia. Segundo ele, diante de eventos como conflitos internacionais e interrupções logísticas, o setor brasileiro demonstrou capacidade de reorganizar rotas, encontrar alternativas e manter o fluxo das exportações. Essa capacidade de resposta seria, na visão do executivo, um diferencial em relação a outros mercados.

O problema é que resiliência não elimina a necessidade de previsibilidade. Produzir frango e suínos envolve ciclos longos e investimentos que precisam ser planejados muito além de um calendário político. A dificuldade, portanto, está em conciliar flexibilidade para reagir às mudanças e segurança suficiente para investir.

Antimicrobianos: tecnologia já permite produzir de outra forma

Outro tema central da conversa foi a retirada dos antimicrobianos como promotores de desempenho. Os executivos avaliam que a cadeia brasileira já possui conhecimento técnico e alternativas para produzir sem esse modelo de utilização, além de experiência com uso racional de medicamentos quando necessário. O desafio, segundo eles, está em estabelecer regras claras e equilibradas para que produtores e empresas saibam exatamente quais exigências deverão cumprir.

Fábio resumiu a avaliação de que a etapa tecnológica já foi superada e que a maior oportunidade está em comunicar melhor esse conhecimento.

“Eu acho que essa é uma etapa vencida. A gente sabe produzir, sabe como produzir e a gente consegue entregar o que o cliente deseja ou conforme ele tem a especificação”, destacou.

A comunicação ainda chega depois dos problemas

Esse foi um dos pontos mais contundentes da entrevista. Para os executivos, a cadeia de proteína animal ainda se comunica de maneira predominantemente reativa: espera que determinado assunto se transforme em crise para então explicar sua posição.

Fábio defendeu uma comunicação mais antecipada, capaz de apresentar as práticas, os avanços e as histórias do setor antes que terceiros definam a narrativa. Ribas acrescentou que essa comunicação precisa vir acompanhada de maior convergência entre as entidades representativas.

A ideia é sair da lógica de agir somente em momentos de pressão e construir uma agenda permanente de comunicação e defesa dos interesses da cadeia.

“A gente precisa, e aí eu tô falando nós como empresas aqui junto com as empresas de comunicação, contar cada vez mais as histórias de forma mais proativa e não esperar que as coisas aconteçam”, afirmou Stumpf.

Para Ribas, a dificuldade não está apenas em comunicar melhor o que o setor faz, mas também em definir conjuntamente quais são as prioridades que precisam ser defendidas perante o poder público.

O desafio agora é cuidar do que está dentro de casa

Na avaliação dos executivos, questões estruturais brasileiras continuam pressionando a competitividade como, logística, crédito, tributação, custos trabalhistas e acesso à tecnologia aparecem como entraves para novos investimentos e para a modernização da cadeia.

Mesmo assim, a percepção final foi de confiança na capacidade do setor. A proteína animal continuará ocupando espaço relevante na alimentação mundial, enquanto o Brasil reúne produção, tecnologia e experiência para ampliar sua participação.

O recado deixado no estúdio da agriNews Brasil foi, portanto, menos sobre esperar um cenário mais estável e mais sobre preparar a cadeia para navegar em um cenário que provavelmente continuará instável.

SIAVS também é espaço para aproximar produtor e tecnologia

Além dos debates estratégicos, os executivos destacaram a importância de levar produtores ao evento para que possam visualizar de perto o tamanho da cadeia, conhecer novas tecnologias e ampliar sua visão sobre o próprio negócio. Essa aproximação, segundo eles, ajuda a conectar inovação, conhecimento e produção e pode contribuir para que uma nova geração continue enxergando oportunidades no agro.

No fim, a força do setor aparece justamente nessa combinação, capacidade de adaptação, conhecimento técnico e disposição para continuar investindo, mesmo quando o cenário externo impõe novas dificuldades.

Entrevista completa

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