Diversificar é preciso
Brasil embarcou 131,5 mil toneladas em julho, alta de 3,7% sobre o mesmo mês de 2025, mas o produtor ainda não vê o retorno na precificação.

As exportações brasileiras de carne suína mantiveram trajetória de crescimento em julho, mas os números divulgados nesta segunda-feira (10) pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) revelam um cenário que merece atenção, o país está embarcando mais, porém a receita não cresce na mesma proporção. Em julho, foram exportadas 131,5 mil toneladas, alta de 3,7% em relação às 126,8 mil toneladas registradas no mesmo mês de 2025. A receita, entretanto, recuou 5,6%, passando de US$ 316,1 milhões para US$ 298,3 milhões.
O comportamento indica pressão sobre o valor médio obtido por tonelada exportada. Em julho deste ano, o valor médio ficou próximo de US$ 2,27 mil por tonelada, abaixo dos cerca de US$ 2,49 mil registrados no mesmo mês do ano passado.
Para Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, o movimento está relacionado ao ambiente internacional de preços pressionados, especialmente ao comportamento do mercado chinês, que continua tendo influência relevante sobre a formação dos preços globais de carne suína.
“Temos um cenário de preços globais deprimidos em algumas regiões importantes, a exemplo da própria China. A China tem uma grande dificuldade de ver uma evolução dos seus preços na suinocultura e isso acaba travando o mercado global”, explica o analista.
O efeito aparece também no resultado acumulado do ano. Entre janeiro e julho, o Brasil embarcou 925,6 mil toneladas de carne suína, crescimento de 9,1% sobre as 848,8 mil toneladas registradas no mesmo período de 2025. A receita, porém, avançou em ritmo menor, de 5,8%, alcançando US$ 2,158 bilhões, ante US$ 2,040 bilhões no ano passado.
O cenário reforça uma característica importante do mercado brasileiro em 2026: as exportações vêm funcionando como um importante canal de escoamento da produção em um momento de pressão sobre o mercado doméstico, mas o aumento dos embarques ainda não significa, necessariamente, recuperação proporcional da remuneração ao longo da cadeia.
O desempenho externo ocorre em paralelo a um cenário de preços pressionados no mercado interno. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) já vinham apontando queda significativa nas cotações do suíno vivo. Em junho, o indicador SP-5 registrou média de R$ 5,25/kg, recuo de 2,9% em relação a maio e de 41,2% na comparação com junho de 2025.
Nesse contexto, ampliar o volume exportado ganha importância para a suinocultura brasileira, principalmente por permitir retirar parte da oferta do mercado doméstico. O recorde de embarques registrado no primeiro semestre já havia apontado para esse movimento, com as exportações funcionando como uma alternativa diante da combinação entre oferta elevada e demanda interna enfraquecida.
Diversificar é preciso
Mas, além de exportar mais, o Brasil também está exportando para um conjunto mais amplo de mercados. Em julho, as Filipinas foram o principal destino da carne suína brasileira, com 20,3 mil toneladas, seguidas pelo Japão, com 18,4 mil toneladas, e pelo Chile, com 13,9 mil toneladas. A China apareceu na quarta posição, com 9,1 mil toneladas. Na sequência vieram Argentina, com 6,5 mil toneladas; México, com 6,3 mil toneladas; e Hong Kong e Uruguai, ambos com 6,2 mil toneladas.
A composição da pauta chama atenção porque mostra uma participação mais distribuída entre diferentes compradores. A China continua sendo um mercado relevante, mas deixou de concentrar a maior parcela dos embarques, enquanto destinos asiáticos e latino-americanos ampliam sua presença.
Para Iglesias, essa diversificação já representa uma mudança significativa para a suinocultura brasileira.
“Já temos uma mudança bem importante para a suinocultura brasileira. O mercado está mais diverso, as aberturas de mercado estão fazendo efeito, estão surtindo efeito. E dessa forma que nós estamos observando é o Brasil com vendas bastante pulverizadas, conseguindo aí uma melhor diversidade dentre os seus importadores”, afirma.
A avaliação ganha peso diante de um mercado internacional sujeito a mudanças sanitárias, comerciais e geopolíticas. Quanto maior o número de destinos consolidados, menor tende a ser a dependência do setor em relação ao desempenho de um único comprador e maior a capacidade de redirecionar os embarques diante de mudanças de demanda ou de restrições comerciais.
O avanço do Japão é um exemplo desse processo. O país recebeu 18,4 mil toneladas de carne suína brasileira em julho, ficando atrás apenas das Filipinas. Em junho, os embarques brasileiros para o mercado japonês já haviam apresentado crescimento expressivo na comparação anual.
A estratégia de diversificação também aparece na expansão de mercados como Argentina, México, Peru e África do Sul, que passam a contribuir para uma pauta exportadora mais pulverizada.
Sul do Brasil eleva liderança em exportações
No recorte por estado, Santa Catarina manteve a liderança das exportações brasileiras de carne suína em julho, com 64,6 mil toneladas, alta de 0,2% em relação ao mesmo mês de 2025. O Rio Grande do Sul ficou em segundo lugar, com 29,4 mil toneladas, também crescimento de 0,2%.
O Paraná foi o destaque entre os principais estados exportadores, com 21,7 mil toneladas e avanço de 15,3%. Minas Gerais embarcou 4,2 mil toneladas, alta de 24,4%, enquanto Mato Grosso exportou 3,8 mil toneladas, crescimento de 35,7%.
Os números estaduais mostram que, embora Santa Catarina continue concentrando uma parcela expressiva das exportações brasileiras, outros polos produtores também ampliam sua participação no mercado externo.
Com o resultado de julho, o Brasil se aproxima da marca de 1 milhão de toneladas exportadas em 2026. O desempenho acumulado até agora mantém o setor em ritmo superior ao registrado no ano passado, mas o cenário internacional indica que o desafio não será apenas ampliar volumes.
Rememoração
Para um entendimento mais amplo e analítico do cenário real das exportações da carne suína brasileira, a redação da suínoBrasil compilou as últimas públicações sobre o tema:
Vendas em alta. Precificação em declínio
A questão central para os próximos meses será saber em que medida o crescimento das exportações poderá contribuir para melhorar o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado brasileiro e, consequentemente, ajudar na recuperação dos preços ao produtor. De um lado, a suinocultura brasileira demonstra capacidade de ampliar sua presença internacional, conquistar novos mercados e reduzir a concentração dos embarques. De outro, os preços globais pressionados limitam a conversão desse crescimento em receita e rentabilidade.
Assim, o desempenho das exportações em 2026 apresenta duas faces, o Brasil está vendendo mais carne suína ao mundo, mas ainda precisa transformar o aumento dos volumes e a diversificação dos destinos em maior valorização do produto e melhores condições para toda a cadeia produtiva.
Fonte: Redação suínoBrasil.
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