O que a suinocultura ainda não mede pode custar mais caro do que o que ela já sabe produzir
Suinocultura precisa medir emissões, comprovar avanços e transformar falhas invisíveis em decisões de gestão sustentável, eficiente e transparente.

O que a suinocultura ainda não mede pode custar mais caro do que o que ela já sabe produzir
No Simpósio Satélite SINSUI-ELANCO, especialistas deslocaram o debate sobre a próxima década da produção de suínos. Mais do que buscar novos saltos de produtividade, a cadeia terá de transformar água, diagnóstico, origem dos animais, execução, bem-estar e comprovação técnica em variáveis reais de gestão.
A suinocultura aprendeu a medir conversão alimentar, ganho de peso, mortalidade, taxa de parto, leitões desmamados, peso de abate e custo de produção. Mas o Simpósio SINSUI-ELANCO de Sanidade de Suínos, realizado durante o SINSUI 2026, deixou um recado menos confortável para a próxima década: parte da competitividade pode estar justamente no que ainda não é medido, interpretado ou executado com a mesma disciplina.
Da qualidade química da água à origem dos leitões; da escolha correta da amostra no diagnóstico à aderência efetiva aos protocolos de biosseguridade; da pressão do consumidor urbano sobre o bem-estar animal ao desafio de transformar genética em resultado diário, os especialistas convidados ampliaram o debate e deslocaram o foco para questões centrais da produção. O futuro da produção latino-americana de suínos não dependerá apenas de novos saltos de produtividade. Dependerá da capacidade de tornar visíveis variáveis que ainda passam ao largo dos indicadores clássicos da granja.
Provar o que já se faz será tão importante quanto produzir mais
Na abertura do simpósio, Deyse Galle, da Elanco Saúde Animal, situou a discussão em um ambiente de maior exigência internacional. A produção brasileira de suínos cresce em relevância, diversifica destinos de exportação e se beneficia de um ativo sanitário estratégico. Mas, na leitura apresentada por ela, essa posição só se sustenta se o setor conseguir transformar sanidade, biosseguridade, produtividade, sustentabilidade, uso responsável de antimicrobianos e bem-estar animal em evidências organizadas.
O ponto central não foi defender que a cadeia faça mais promessas ao mercado. Foi mostrar que a próxima década exigirá comprovação. Em temas como resistência antimicrobiana, sustentabilidade produtiva e prevenção sanitária, não basta adotar práticas dentro das granjas e agroindústrias. Será necessário documentar, medir, explicar e dar às autoridades sanitárias condições de demonstrar, perante compradores internacionais, o que o Brasil já faz.
Produtividade só vira vantagem quando reduz variação
José Henrique Piva, da Agroceres PIC, ampliou a discussão para o cenário global. Sua palestra mostrou uma suinocultura exposta à volatilidade de custos, margens estreitas, ciclos econômicos mais longos, pressão sanitária e necessidade crescente de padronização. O ganho de produtividade segue sendo decisivo, mas o diferencial da próxima década não estará apenas em produzir mais. Estará em produzir com menor variação, maior previsibilidade, melhor sanidade e processos mais disciplinados.
Um dos dados mais fortes apresentados por Piva foi a comparação sobre produtividade nos Estados Unidos. Segundo o material exibido, para produzir volume equivalente de carne suína em 2024 com a tecnologia dos anos 1990, seriam necessários 8,9 milhões de partos adicionais. O dado transforma produtividade em argumento concreto de sustentabilidade: produzir melhor reduz necessidade de base reprodutiva, instalações, insumos, mão de obra e exposição sanitária.
Ao mesmo tempo, Piva alertou que a atividade seguirá tendo ganhadores e perdedores. A diferença estará na capacidade de enfrentar sanidade, mão de obra, liderança, desenho de instalações, tecnologia e integração da cadeia com uma lógica de retorno real, e não de adoção de ferramentas por modismo.
O gargalo da genética pode estar dentro da rotina
Rodrigo Moreira, da MBRF/BRF, trouxe uma das viradas técnicas mais fortes do painel. Na leitura apresentada por ele, a suinocultura latino-americana não será vencida apenas por quem tiver a melhor genética disponível, mas por quem conseguir converter esse potencial em resultado consistente, todos os dias, em todas as granjas.
A discussão desloca o foco de “mais leitões” para “melhores leitões”. Peso ao nascer, viabilidade, robustez, habilidade materna, adaptação ao calor, sanidade, redução de perdas e produtividade ao longo da vida da matriz passam a ganhar mais peso do que a prolificidade observada isoladamente. A genética continuará avançando, com genômica, reprodução de precisão, seleção para resistência e tecnologias emergentes. Mas, sem manejo, pessoas, nutrição, sanidade e aderência a protocolos, esse potencial pode não chegar ao resultado final.
A fase final pode desperdiçar o leitão bom
Anne Caroline de Lara, da Seara Alimentos, levou essa discussão para creche e terminação. A palestra mostrou que essas fases não devem ser tratadas apenas como etapas finais do processo, mas como pontos decisivos para capturar, preservar ou perder o potencial construído na reprodução, na maternidade, na genética, na nutrição e na sanidade.
Entre os pontos de maior valor técnico estiveram a origem única, o controle de doenças endêmicas, a robustez imunitária, a qualidade do leitão, a conversão alimentar, a mortalidade, a mão de obra e a adoção de tecnologias que comprovem retorno. O recado é direto: a fase final não corrige o leitão ruim, mas pode desperdiçar o leitão bom quando o sistema não controla desafio, fluxo, sanidade e execução.
A água deixou de ser pano de fundo
Everton Luis Krabbe, da Embrapa Suínos e Aves, apresentou um dos temas mais surpreendentes do painel ao tratar a água como nutriente, variável de desempenho, fator sanitário, componente ambiental e possível elemento de custo mais relevante na próxima década. Sua provocação foi clara: a suinocultura padronizou genética, nutrição, manejo, ambiência e sanidade, mas ainda opera com uma água que muitas vezes não é padronizada.
A palestra mostrou que qualidade de água não se resume à contaminação microbiológica. pH, alcalinidade, salinidade, minerais, ORP, biofilme, capacidade de acidificação e variabilidade ao longo do ano podem interferir na digestão, no aproveitamento de nutrientes, nos desafios de creche e na eficiência do tratamento. Ao dizer que não existe “dose de rótulo” para acidificação de água, Krabbe colocou o tema no centro da gestão técnica da granja.
Diagnóstico errado também é custo de produção
Kyoungjin J. Yoon, da Iowa State University, trouxe a camada sanitária global com uma mensagem especialmente relevante para equipes técnicas: nomear um agente não significa compreender a doença, e detectar um material genético por PCR não encerra o diagnóstico. O palestrante destacou a importância da amostragem correta, da interpretação de genótipos, da combinação entre sinais clínicos, lesões e contexto epidemiológico e da integração entre diagnóstico, biosseguridade, vacinação e tomada de decisão.
A palestra reforçou que a sanidade da próxima década não será apenas uma disputa contra patógenos conhecidos ou emergentes, mas contra interpretações simplificadas. Amostra errada, conclusão errada. PCR positivo sem contexto, decisão incompleta. Genótipo identificado sem leitura epidemiológica, falsa sensação de controle. Para o produtor, o veterinário e a agroindústria, isso significa que diagnóstico também precisa entrar na conta econômica da produção.
O consumidor que nunca entrou na granja também virou variável técnica
Cleandro Pazinato Dias, da AKEI, mostrou que bem-estar animal não pode mais ser tratado como tema paralelo, reputacional ou restrito a exigências externas. A partir da frase “nós produzimos para alguém consumir”, o palestrante conectou urbanização, novas gerações, humanização dos pets, redes sociais, percepção pública e mudanças em sistemas produtivos.
Gestação coletiva, maternidades livres, restrição de práticas em leitões recém-nascidos e qualidade do transporte foram apresentados como pontos de difícil argumentação diante de um consumidor urbano, digital e cada vez mais distante da produção animal. O alerta não é apenas comunicacional. A percepção social sobre bem-estar pode acelerar mudanças de mercado, legislação, auditorias e reputação, influenciando decisões técnicas dentro da cadeia.
A próxima década exigirá gestão do invisível
O painel SINSUI-ELANCO não apontou uma única resposta para o futuro da suinocultura latino-americana. Apontou uma nova régua. A cadeia seguirá precisando de produtividade, genética, escala, sanidade e acesso a mercados. Mas o próximo salto pode depender da capacidade de enxergar melhor aquilo que ainda fica invisível na rotina: a água que muda ao longo do ano, a amostra que define o diagnóstico, o protocolo que não é executado, a origem que aumenta o desafio, o transporte que expõe perdas, o consumidor que muda a tolerância social e a evidência técnica que ainda não foi organizada para defender o setor.
A mensagem mais forte do painel talvez seja justamente essa: a suinocultura já sabe produzir. Agora, terá de medir melhor o que ainda escapa, provar melhor o que já faz e transformar pontos cegos em decisão de gestão.
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