O consumidor que nunca entrou em uma granja pode decidir o futuro da suinocultura
No SINSUI, Cleandro Pazinato Dias afirmou que o futuro da suinocultura também será definido pela percepção do consumidor urbano sobre bem-estar animal. O palestrante destacou que transporte, manejo e comunicação da cadeia influenciam reputação, mercado e competitividade.

O consumidor que nunca entrou em uma granja pode decidir o futuro da suinocultura
O futuro da suinocultura não será definido apenas dentro da granja. Ele também será influenciado por consumidores urbanos, digitais e cada vez mais distantes da produção animal. Essa foi a provocação central de Cleandro Pazinato Dias, da AKEI, durante palestra no Simpósio SINSUI-ELANCO de Sanidade de Suínos.
A partir da frase “nós produzimos para alguém consumir”, Cleandro reposicionou o bem-estar animal como tema de competitividade, reputação, acesso a mercado e gestão de risco. A mensagem não foi apenas que a cadeia precisa comunicar melhor o que faz. Foi que algumas práticas podem se tornar cada vez mais difíceis de sustentar apenas pela argumentação, especialmente diante de consumidores jovens, urbanos e influenciados por redes sociais.
A distância entre consumidor e granja aumentou
Um dos dados usados na apresentação foi a elevada urbanização da América Latina e do Brasil. A leitura do palestrante foi que o consumidor que compra carne suína está cada vez mais distante da origem do alimento. Muitos não têm memória rural, não conhecem práticas produtivas e formam percepção a partir de imagens, denúncias, vídeos, influenciadores e narrativas digitais.
Esse distanciamento muda a forma como a sociedade avalia a produção animal. Para a cadeia, determinados manejos podem ter explicação técnica, econômica ou sanitária. Para quem observa de fora, sem contexto, eles podem ser interpretados como maus-tratos, negligência ou falta de transparência.
Pets mudaram a forma de olhar os animais
Cleandro também conectou o crescimento dos animais de companhia e a humanização dos pets à percepção pública sobre animais de produção. Na visão apresentada, principalmente entre gerações mais jovens, há uma aproximação emocional entre pets e animais criados para produção. Isso não significa que todos os consumidores rejeitem proteína animal, mas indica que a tolerância a determinadas práticas pode mudar.
Essa mudança torna o bem-estar uma variável técnica e comercial. Gestação coletiva, maternidades livres, restrição de práticas em leitões recém-nascidos e transporte foram apresentados como pontos de maior sensibilidade. São temas que exigem adaptação, indicadores, transparência e, em alguns casos, mudanças estruturais nos sistemas.
Transporte expõe a imagem de toda a cadeia
Entre os pontos críticos, o transporte recebeu destaque especial. Cleandro afirmou que a forma como os suínos são transportados influencia a imagem que a comunidade tem de toda a cadeia produtiva. Isso coloca treinamento de motoristas, qualidade dos veículos, monitoramento, planos de contingência, indicadores de bem-estar e rastreabilidade como elementos de gestão, não apenas como exigências operacionais.
A palestra também abordou o risco de viralização. Casos de maus-tratos envolvendo animais podem ganhar grande repercussão nas redes e acelerar respostas legais, regulatórias e empresariais. Para a suinocultura, o alerta é que a reputação pode ser impactada por episódios que a sociedade interpreta com velocidade muito maior do que a cadeia consegue explicar.
Bem-estar deixa de ser pauta paralela
A principal contribuição da palestra foi mostrar que bem-estar animal não deve ser tratado como assunto externo à produção. Ele dialoga com ambiência, manejo, mortalidade, transporte, instalações, mercado, legislação, reputação e confiança do consumidor.
O consumidor que nunca entrou em uma granja pode não decidir sozinho o futuro da suinocultura. Mas sua percepção já influencia varejo, compradores, normas, compromissos empresariais e pressão social. Para uma cadeia que produz para alguém consumir, ignorar essa variável pode ser mais arriscado do que enfrentá-la tecnicamente.
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