21 maio 2026

Cepas de alta patogenicidade mudam o peso clínico do Actinobacillus suis no Brasil

Rafael Frandoloso, da UPF, alertou no SINSUI que A. suis não deve ser tratado como agente menor diante da circulação de cepas de alta patogenicidade, diversidade antigênica e desafios para prevenção.

Cepas de alta patogenicidade mudam o peso clínico do Actinobacillus suis no Brasil

Por redação suínoNews

Actinobacillus suis não deve mais ser tratado como agente secundário ou de baixa relevância clínica na suinocultura brasileira. Esse foi o eixo da palestra de Rafael Frandoloso, da Universidade de Passo Fundo, durante o painel “Complexo de Doenças Respiratórias em Suínos de Creche: como estamos frente aos desafios”, realizado no SINSUI 2026.

Rafael Frandoloso

Ao reavaliar a importância clínica do agente no Brasil, Frandoloso apresentou dados que apontam para a circulação de cepas de alta patogenicidade, diversidade genética e antigênica e necessidade de estratégias preventivas mais precisas. A discussão colocou A. suis dentro do complexo respiratório, mas também ampliou a atenção para quadros graves que podem envolver septicemia, artrite, meningite e lesões pulmonares severas.

Segundo o palestrante, há cepas capazes de induzir doença importante mesmo sem coinfecções ou condições imunossupressoras evidentes. Esse ponto altera a forma como o agente deve ser interpretado. Em vez de aparecer apenas como componente secundário de um quadro respiratório, A. suis passa a exigir investigação própria, especialmente quando há mortalidade, lesões severas ou falha de resposta a medidas convencionais.

Terminação apareceu com maior peso na base apresentada

Frandoloso apresentou surtos diagnosticados entre 2023 e 2026 em estados do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, com fonte atribuída à AFK Imunotech. Na distribuição por fase produtiva exibida na palestra, a terminação concentrou 79,4% dos isolamentos apresentados, seguida por creche, com 10,8%, e maternidade, com 9,8%.

Esse dado precisa ser lido com precisão, pois se refere à base apresentada pelo palestrante, e não a uma prevalência nacional oficial. Ainda assim, tem grande valor técnico porque desloca a percepção de A. suis como problema restrito a fases iniciais, demonstrando que quadros respiratórios severos na terminação também devem considerar o agente no diagnóstico diferencial.

Segundo slide apresentado por Rafael Frandoloso, a base da AFK Imunotech indicou aumento de 486% na frequência de lesões com isolamento de Actinobacillus suis entre 2023 e 2025, com alta de 357% de 2023 para 2024 e de 28% de 2024 para 2025.

 

Identificar o agente pode não ser suficiente

Um dos pontos mais importantes da palestra foi a diversidade genética e antigênica de Actinobacillus suis. Frandoloso explicou que a presença do agente não responde sozinha quais cepas estão envolvidas, qual é o nível de virulência ou qual estratégia preventiva tem maior chance de funcionar.

A apresentação abordou diferenças relacionadas à cápsula, LPS, clusters antigênicos e virulência. A mensagem aplicada é que, em um mesmo sistema, podem circular cepas antigenicamente diferentes. Se essa diversidade não for considerada, a formulação de uma vacina autógena pode não contemplar todos os componentes relevantes para o controle.

Essa abordagem muda a discussão sobre prevenção. Não basta “ter vacina”. É preciso formular a vacina com base nas cepas realmente envolvidas no sistema, considerando cluster antigênico e adjuvante adequado. Segundo Frandoloso, o desempenho vacinal depende da precisão dessa escolha.

 

Sensibilidade antimicrobiana exige decisão com base laboratorial

A palestra também trouxe dados de sensibilidade antimicrobiana de 46 isolados clínicos avaliados entre 2024 e 2026. Os percentuais apresentados variaram entre diferentes princípios ativos, com cenário classificado como preocupante no slide. Para o leitor técnico, esse ponto tem aplicação direta.

O dado não deve ser transformado em recomendação terapêutica. A leitura correta é outra: tratamento empírico pode falhar quando não há diagnóstico laboratorial e antibiograma. Em um cenário de diversidade de cepas e respostas variáveis a antimicrobianos, a decisão precisa ser sustentada por informação do próprio caso ou sistema.

 

Actinobacillus suis: Vacina autógena entra como ferramenta de precisão

A parte final da apresentação destacou o desenvolvimento e a avaliação clínica de vacinas inativadas formuladas com Actinobacillus suis. O estudo envolveu 111 leitões convencionais negativos para A. pleuropneumoniae e M. hyopneumoniae, com imunizações aos 21 e 35 dias de vida, desafio experimental aos 49 dias e necropsia aos 63 dias.

Diarreia neonatal afeta suínos, sendo multifatorial, com agentes diversos, causando perdas produtivas e exigindo controle sanitário integrado eficaz.

Nos dados apresentados, os grupos vacinados mantiveram 100% de sobrevivência após o desafio, enquanto o grupo controle desafiado apresentou queda na probabilidade de sobrevivência. A apresentação também indicou redução de escores de lesão pulmonar em grupos vacinados.

Frandoloso tratou o estudo como evidência de que é possível produzir vacina eficiente contra A. suis, mas também reforçou que nem todos os adjuvantes produziram respostas protetoras adequadas. Essa ressalva é importante porque evita a leitura simplificada de que a vacina autógena, por si só, resolve o problema.

A principal contribuição da palestra foi reposicionar A. suis dentro da sanidade suína brasileira. O agente não deve ser ignorado nem tratado automaticamente como coadjuvante. Quando há cepas de alta patogenicidade, diversidade antigênica e impacto clínico relevante, diagnóstico preciso e prevenção personalizada deixam de ser detalhe laboratorial e passam a ser parte da estratégia sanitária da granja.

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