09 set 2026

R$ 25 por suíno terminado separam fluxos positivos e negativos para Mycoplasma

Análise brasileira apresentada por Gustavo Simão reforça a erradicação como decisão econômica e mostra por que o agente, o momento da intervenção e o risco de recontaminação definem a estratégia sanitária

R$ 25 por suíno terminado separam fluxos positivos e negativos para Mycoplasma

R$ 25 por suíno terminado separam fluxos positivos e negativos para Mycoplasma

Uma diferença estimada em R$ 25 por suíno terminado separou fluxos negativos e positivos para Mycoplasma hyopneumoniae em uma análise brasileira que reuniu 1,605 milhão de animais. O levantamento, apresentado pelo médico-veterinário Gustavo Simão durante o 6º Encontro da ABRAVES-SP, desloca a discussão sanitária para uma pergunta de gestão: quanto custa manter um agente circulando continuamente no sistema?

O comparativo incluiu 620 mil suínos de fluxos negativos e 985 mil de fluxos positivos, distribuídos em três sistemas de produção que mantinham as duas condições sanitárias. Segundo Simão, a diferença observada no desempenho econômico ficou muito próxima de estimativas internacionais, o que reforça a oportunidade de avaliar programas de eliminação na realidade brasileira.

Gustavo Simão, gerente de Serviços Veterinários da Agroceres PIC

Gustavo Simão, gerente de Serviços Veterinários da Agroceres PIC

“A alta saúde resulta em alta competitividade”, afirmou Simão, gerente de Serviços Veterinários da Agroceres PIC. Para ele, genética, nutrição e ambiência avançaram, mas parte do potencial produtivo continua limitada por agentes com os quais os sistemas se acostumaram a conviver. “Quando entendemos que a saúde do plantel é um ativo, muda a perspectiva sobre o impacto financeiro.”

A mensagem não foi a de erradicar qualquer agente em qualquer granja. A palestra mostrou que a decisão depende da enfermidade, da estrutura produtiva, do momento epidemiológico, da possibilidade de fechar o plantel e, sobretudo, do risco de reintrodução. Simão concentrou a análise em quatro alvos: Mycoplasma hyopneumoniae, Seneca Valley virus (SVV), influenza suína e Actinobacillus pleuropneumoniae (App).

A mesma palavra esconde estratégias diferentes

Para Mycoplasma hyopneumoniae, SVV e influenza suína, Simão apresentou possibilidades de eliminação sem depopulação completa. No caso do App e de outros agentes, a depopulação e a repopulação, inclusive com preparação de animais fora do sítio original, podem ser necessárias. A distinção é decisiva porque muda o custo, o tempo de interrupção, a logística de reposição e a exposição do sistema ao risco.

No SVV, o tempo de resposta é crítico. Simão relatou duas experiências brasileiras em granjas de ciclo completo, uma com 1.500 matrizes, em 2021, e outra com 1.600 matrizes, em 2025. Após a confirmação do agente e a exclusão de febre aftosa no diagnóstico diferencial, as equipes fecharam os plantéis, promoveram exposição controlada e sincronizada sob condução veterinária, monitoraram semanalmente a circulação viral por qPCR em fluido oral e transferiram o desmame para fora da unidade.

O período de desmame externo começou três semanas após a exposição e teve duração mínima de seis semanas. Em uma das granjas, os resultados negativos permitiram retomar o fluxo interno na décima semana. Na outra, o processo se estendeu até a 17ª semana, após a equipe identificar uma particularidade no fluxo de leitões que prolongou a circulação viral. O contraste entre os dois casos sustentou uma das conclusões mais práticas da palestra: a detecção precoce, o fechamento imediato e o domínio real do fluxo determinam a duração e o custo do programa.

A interrupção também produziu um efeito que extrapolou o SVV. O esvaziamento da creche quebrou ciclos de outros agentes e foi seguido por melhora de indicadores produtivos. Simão usou o caso para reforçar o valor do manejo todos dentro, todos fora e o risco sanitário dos sistemas de ciclo completo quando a creche mantém grupos de idades e desafios diferentes em circulação contínua.

Na influenza suína, a ferramenta central apresentada foi a vacina homóloga, associada ao fechamento da granja e ao desmame fora da unidade por quatro semanas. Já a erradicação de App foi relacionada a estratégias com depopulação e repopulação. Esses exemplos mostram por que um protocolo bem-sucedido para um agente não pode ser transferido automaticamente para outro.

O investimento que volta antes de o risco desaparecer

Entre os agentes discutidos, Mycoplasma hyopneumoniae foi apontado por Simão como a maior oportunidade imediata para a suinocultura brasileira elevar o status sanitário. Além da análise nacional que estimou R$ 25 por terminado entre fluxos positivos e negativos, ele apresentou referências norte-americanas com benefício conservador de US$ 3,60 por suíno terminado e retorno do investimento em cerca de 18 semanas após o início da entrega de animais negativos ao frigorífico.

O raciocínio econômico ganha força quando comparado à permanência do status alcançado. Em dados apresentados sobre programas realizados em Minnesota, as granjas permaneceram livres do agente por uma mediana de 58 semanas. O retorno, portanto, teria ocorrido bem antes do período mediano de manutenção da negatividade. Simão ponderou, porém, que o valor não elimina a necessidade de calcular o risco específico de cada propriedade.

“Não há mais dúvida sobre o benefício da erradicação. A dúvida é como fazer”, resumiu. A avaliação começa pela localização da granja, pela densidade regional, pela origem da reposição e pelas barreiras capazes de compensar uma exposição externa maior. Cercas e isolamento, barreiras sanitárias, controle de acesso e fluxo de animais foram apresentados como pontos não negociáveis.

A reabertura para reposição também exige quarentena estruturada, confirmação laboratorial da origem negativa para Mycoplasma hyopneumoniae e sincronização entre o cronograma do fechamento e a capacidade disponível. Um lote introduzido fora do planejamento pode comprometer meses de trabalho e recolocar o agente no sistema.

A evidência citada na palestra ajuda a dimensionar esse risco sem superestimá-lo. Em estudo com 100 terminações que receberam leitões de origens negativas, 94 permaneceram negativas ao final do acompanhamento. O resultado, atribuído a Yeske et al. (2020), indica que a transmissão horizontal não torna inevitável a perda do status sanitário, embora localização e biosseguridade continuem decisivas.

Paul Yeske, mencionado por Simão como uma das principais referências em eliminação de M. hyopneumoniae nos Estados Unidos, detalhou à suínoBrasil como estabilização, fechamento de rebanho e respeito ao período de 240 dias sustentam os programas de eliminação:

O protocolo termina na execução diária

A decisão de erradicar começa no orçamento, mas se resolve na rotina. Simão destacou que o programa precisa reunir sanitaristas, gestores e colaboradores da granja em torno dos mesmos objetivos, responsabilidades e expectativas. Os treinamentos devem ser específicos para as etapas que cada pessoa executará.

“Precisamos alinhar todos, do médico-veterinário ao colaborador da granja”, disse. O embarque de animais, a movimentação interna, a entrada de pessoas, veículos e equipamentos e o cumprimento das barreiras deixam de ser procedimentos periféricos. Cada um pode preservar ou destruir o status sanitário conquistado.

Por isso, o custo de permanecer positivo não deve ser comparado apenas ao valor de medicamentos ou vacinas. Ele aparece na conversão alimentar, no ganho de peso, na mortalidade, nas infecções secundárias, na necessidade de tratamentos e na previsibilidade do fluxo. A erradicação, por sua vez, concentra desembolsos e exige disciplina operacional antes de começar a devolver resultado.

Os R$ 25 por suíno terminado apresentados em Pirassununga não funcionam como promessa universal. Funcionam como sinal para que sistemas tecnificados façam a própria conta. Quando a diferença entre fluxos positivos e negativos se repete em centenas de milhares de animais, conviver com o agente deixa de ser uma condição sanitária neutra e passa a ser uma decisão econômica que precisa ser mensurada.

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