Especialistas defendem uma mudança de lógica na gestão sanitária: menos decisões baseadas em um único laudo e mais integração entre dados, diagnóstico, produtores, laboratórios e pesquisa.

Mais exames, mais tecnologia e uma quantidade crescente de informações não têm sido suficientes para impedir que parte da suinocultura brasileira continue tomando decisões quanto à sanidade suína somente depois que o problema aparece. Para os médicos-veterinários Everson Zotti, especialista em sanidade suína, e Edison Magalhães, pesquisador em epidemiologia suína, o principal desafio está justamente em transformar diagnóstico, dados e conhecimento em uma estratégia coordenada, antes que a doença se manifeste de forma evidente.
Durante o 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS), realizado pelo Nucleovet, os especialistas discutiram, em entrevista ao estúdio da agriNews Brasil e suínoBrasil, os gargalos que ainda limitam a inteligência sanitária das granjas e os aprendizados que podem vir da experiência norte-americana.
O problema começa antes do tratamento
Para Zotti, um dos maiores entraves está na própria estrutura de diagnóstico, especialmente na maternidade. Segundo ele, ainda existem situações em que o produtor não sabe sequer qual laboratório é o mais adequado para determinada análise ou recebe um resultado limitado a “positivo ou negativo”.
“Então a gente começa com uma coisa tão simples que é a questão do diagnóstico”, destacou.
O problema se agrava quando a coleta acontece apenas após o surgimento de um quadro clínico. Nesse cenário, o resultado de uma única amostra pode acabar direcionando toda a tomada de decisão, sem considerar histórico, momento da coleta ou outras informações do sistema.
Edison Magalhães reforça que interpretar um resultado isoladamente pode levar a decisões equivocadas. A coleta tardia, inclusive após intervenções terapêuticas, pode alterar completamente aquilo que será encontrado no laboratório.
“Não é só positivo e negativo”, afirmou o pesquisador, ao defender uma interpretação mais ampla dos resultados.
Para os especialistas, o diagnóstico precisa fazer parte de um protocolo contínuo, capaz de acompanhar a evolução sanitária da granja e não apenas responder a uma emergência.
É justamente nesse ponto que a tecnologia e a inteligência artificial podem mudar a lógica dos programas sanitários. Segundo Magalhães, muitas empresas já acumulam informações valiosas que permanecem subutilizadas. Indicadores como aborto semanal, consumo de água e ração podem alimentar modelos estatísticos capazes de identificar desvios e gerar alertas antes que um problema se torne evidente.
“Tem muita coisa sendo desenvolvida para o produtor ser mais proativo do que reativo”, explicou.
A experiência norte-americana, segundo os entrevistados, mostra que o avanço não depende apenas de equipamentos ou softwares. O diferencial está também na capacidade de compartilhar informações, integrar empresas, laboratórios, universidades e produtores e construir respostas coletivas.
“Os Estados Unidos trabalham a suinocultura como uma coletividade”, resumiu Zotti.
Para os especialistas, o Brasil não precisa copiar o modelo norte-americano, mas pode adaptar seus princípios à realidade nacional. O caminho passa por ampliar a interação entre os elos da cadeia, criar referências de diagnóstico e transformar dados em decisões mais rápidas e robustas.
Ao final da entrevista, a jornalista Prisicila Beck fez a seguinte pergunta: Se assumissem amanhã a gestão sanitária de uma granja desconhecida, os dois especialistas começariam pelo mesmo ponto: os entrevistados convergiram que se faz necessário conhecer respeitosamente todos os processos da granja e ouvir aqueles que estão lá a mais tempo.
“Você tem que ouvir mais do que falar”, afirmou Zotti. A recomendação resume a principal mensagem da entrevista: programas sanitários eficientes não começam necessariamente com uma coleta ou um tratamento, mas com o entendimento do sistema, das pessoas e da história sanitária.
A mudança, portanto, não seria apenas tecnológica. É também cultural: sair do imediatismo, organizar informações e construir uma inteligência sanitária capaz de antecipar problemas — antes que eles se transformem em mortalidade, condenações, maior uso de antimicrobianos e aumento do custo de produção.
Para sanidade suína avançar: diagnóstico e dados antecipados
Entrevista completa
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